Segunda-feira, Outubro 20, 2008

.voltar?

Leitores de merda, será isso possível?

Vejamos.

Segunda-feira, Outubro 15, 2007

Poeria, muita poeira por aqui.

valeria a pena?

Sexta-feira, Abril 06, 2007

.para aqueles que tiveram uma adolescência saudável e honrosa ou "a menina true metal mais linda do mundo".

Aqui.
"The world ain't all sunshine and rainbows. It's a very rough, mean place... and no matter how tough you think you are, it'll always bring you to your knees and keep you there, permanently... if you let it. You or nobody ain't never gonna hit as hard as life. But it ain't about how hard you hit... it's about how hard you can get hit, and keep moving forward... how much you can take, and keep moving forward. If you know what you're worth, go out and get what you're worth. But you gotta be willing to take the hit.”

ROCKY.

Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

.agora vem aqui e escorrega no verde



Uma das coisas mais estúpidas e engraçadas acaba de acontecer: Esquadrão Aqua Teen vai virar filme? Graças. São coisas desse tipo que ainda me fazem bem.
.do mundo


Este é o Archie.

"Um cachorro norte-americano ganhou a 18ª edição do concurso do "cachorro mais feio do mundo", realizado na cidade de Pentaluma, nos EUA. Archie, um cristado chinês (chinese crested) natural de Arizona, venceu outros 17 concorrentes, desbancando o favoritismo dos adversários."

Pelo que me parece o principal concorrente dela era esse ai de baixo.



"A história do vencedor é curiosa. Sua atual dona trabalhava em um abrigo para cães, onde ele ficava. "Achei que fosse temporário, mas meu marido gostou tanto do cachorro que ficamos com ele", contou a dona no site oficial do cachorro."

Descobri que deram 10 dólares para ela adotar o cachorro.

Go Archie.

Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

Não, não voltaremos. Não adianta guardar esperanças - será em vão.

Ainda assim, posso esporadicamente fazer comentários incidentais, e hoje será um dia desses. Vi duas coisas interessantes na FOX News e gostaria da compartilhá-las com vocês.

Na primeira, aparentemente uma dupla de prankster havia sido presa por sair colando nas paredes dezenas de adesivos luminosos de uma espécie de bonequinho dando um dedo.
A dupla era bem bizarra. Na coletiva à imprensa, um deles, de dread no cabelo, falou que estava tudo bem e que ele próprio estava desfrutando de um "good hair day" - e que portanto só responderia perguntas a respeito de cabelo.
Em seguida, um jornalista perguntou se eles tinham noção da gravidade do que tinham feito, e foi respondido com: "it's not a hair question". Indagados se aquilo tinha sido um protesto, responderam: "it's also not a hair question". Daí por diante, todas as perguntas foram invariavelmente respondidas com "not a hair question", até que um repórter resolveu perguntar se ele não tinha medo perder o cabelo na prisão; "bom, essa é uma boa perguntou" - respondeu o prankster rastafari, afirmando logo na sequência, contudo, que permanecia confiante no seu cabelo.

Não sei qual foi o desfecho da história. Também não sei, afinal, por que as autoridades estavam tão irritadas com o bonequinho com dedo em riste - não creio que seja apenas porque ele brilhava. Não me parece um motivo suficientemente justo.
Embora sentisse uma simpatia institiva para com a dupla, julguei-os rapida e definitivamente como idiotas, dignos de não muita atenção.
Idiotas, de fato, eles eram. Mas doces ainda, sin embargo.

A segunda coisa curiosa foi também na FOX NEWS. Era uma entrevista com a Whoopi Goldberg, mas nem de longe uma entrevista normal. Parecia mais com uma inquirição, ou um daqueles interrogatórios duríssimos típicos de banca examinadora. O assunto era a guerra do Iraque. O apresentador do programa discutia com ela a retirada das tropas, alegando que seria um movimento extramente maléfico para os Estados Unidos. O entrevistador era um homem preparado, inteligente, claramente mais preparado e claramente reacionária. A pobre atriz mal conseguia articular uma resposta, talvez surpresa por ser questionada de forma tão bruta - e, aliás, grosseira, já que era interrompida várias vezes, de forma brusca e nada polida, e não raro com comentários condescendentes e arrogantes.

A discussão girava em torno do seguinte: a Whoopi defendia uma retirada imediata, tal como havia sugerido em público; o "whasp" da Fox News alegava que se fosse levado a cabo, isso só prejudicaria os Estados Unidos. Ela contra-argumentou que a guerra foi iniciada pelas razões erradas, com alegações que mais tarde não se comprovariam (tal como as famigeradas armas de destruição em massa), e que tinha deixado as coisas mais instáveis do que estavam antes. Para minha ampla e absoluta surpresa o entrevistador concordou com tudo (digo surpresa porque os direitistas aqui do Brasil gostam de insistir que, na verdade, foram achadas sim armas de destruição em massa no Iraque) - e não apenas: afirmou que aí ela tinha um bom argumentou, e até tentou reformulá-lo de forma mais lógica e elegante (no que foi relativamente bem sucedido). Só adicionou: "apesar de concordar com tudo isso, não se pode compensar um erro com outro erro".
A linha de pensamento é a seguinte: sim, nós fizemos uma merda, mas agora que já estamos atolados nela fazer outra não será de grande serventia.

O interessante desse ponto de vista é que, embora cretino, ele está correto. O Estados Unidos têm muito a perder ficando no Iraque, porém têm mais ainda abandonando o lugar. Quem examinasse a questão apenas da perspectiva americana seria obrigado a concluir que o melhor mesmo é ficar lá e tentar dar um jeito na bagunça desgraçada que aprontaram.
Geralmente que se opõe à guerra não está levando em conta apenas a postura americana - de fato, considera que a perspectiva mais importante é a daqueles que sofrem diretamente com a guerra: o povo ocupado.
Mas mesmo por aí a questão não é tão simples. Acho difícil que a saída dos Estados Unidos resulte em outra coisa que uma sanguinária guerra civil fratricida. É uma pena, mas parece que o povo está mesmo habituado a responder as divergências políticas na ponta do fuzil; o que é até justo quando a "divergência política" é com o invasor, mas muito inadequado quando é com tradições diferentes da mesma religião.

De todo modo, é uma pena. Espero, sinceramente, que o povo iraquiano consiga seguir em frente com democracia, deixando para atrás tanto a ingerência americana quanto o fanatismo religioso, que são, de fato, cada um à sua maneira, os dois vilões da história.

Por último, reparei também que eles perguntaram à Jane Fonda se ela não estava cometendo o mesmo erro que na época guerra do Vietnã, quando a retirada das tropas americanas, alegou-se, resultou em 3 milhões de mortes.
Gostaria de esclarecer que essa pergunta está enviesada de uma forma inacreditavelmente desonesta. A cifra de 3 milhões só é alcançável se lançarmos na conta dos vietnamitas o genocídio cambojano do Khmer Rouge - o que, cá entre nós, é uma baita injustiça.
Na verdade, o Vietnã não só não pode ser culpado pelos crimes de Pol Pot como pode ser corretamente parabenizado por ter posto fim ao pesadelo. Foi o exércio vermelho vietnamita, e ninguém mais, que depôs a ditadura cambojana e barrou o terror totalitário desse regime.
Não, não voltaremos. Não adianta guardar esperanças - será em vão.

Ainda assim, posso esporadicamente fazer comentários incidentais, e hoje será um dia desses. Vi duas coisas interessantes na FOX News e gostaria da compartilhá-las com vocês.

Na primeira, aparentemente uma dupla de prankster havia sido presa por sair colando nas paredes dezenas de adesivos luminosos de uma espécie de bonequinho dando um dedo.
A dupla era bem bizarra. Na coletiva à imprensa, um deles, de dread no cabelo, falou que estava tudo bem e que ele próprio estava desfrutando de um "good hair day" - e que portanto só responderia perguntas a respeito de cabelo.
Em seguida, um jornalista perguntou se eles tinham noção da gravidade do que tinham feito, e foi respondido com: "it's not a hair question". Indagados se aquilo tinha sido um protesto, responderam: "it's also not a hair question". Daí por diante, todas as perguntas foram invariavelmente respondidas com "not a hair question", até que um repórter resolveu perguntar se ele não tinha medo perder o cabelo na prisão; "bom, essa é uma boa perguntou" - respondeu o prankster rastafari, afirmando logo na sequência, contudo, que permanecia confiante no seu cabelo.

Não sei qual foi o desfecho da história. Também não sei, afinal, por que as autoridades estavam tão irritadas com o bonequinho com dedo em riste - não creio que seja apenas porque ele brilhava. Não me parece um motivo suficientemente justo.
Embora sentisse uma simpatia institiva para com a dupla, julguei-os rapida e definitivamente como idiotas, dignos de não muita atenção.
Idiotas, de fato, eles eram. Mas doces ainda, sin embargo.

A segunda coisa curiosa foi também na FOX NEWS. Era uma entrevista com a Whoopi Goldberg, mas nem de longe uma entrevista normal. Parecia mais com uma inquirição, ou um daqueles interrogatórios duríssimos típicos de banca examinadora. O assunto era a guerra do Iraque. O apresentador do programa discutia com ela a retirada das tropas, alegando que seria um movimento extramente maléfico para os Estados Unidos. O entrevistador era um homem preparado, inteligente, claramente mais preparado e claramente reacionária. A pobre atriz mal conseguia articular uma resposta, talvez surpresa por ser questionada de forma tão bruta - e, aliás, grosseira, já que era interrompida várias vezes, de forma brusca e nada polida, e não raro com comentários condescendentes e arrogantes.

A discussão girava em torno do seguinte: a Whoopi defendia uma retirada imediata, tal como havia sugerido em público; o "whasp" da Fox News alegava que se fosse levado a cabo, isso só prejudicaria os Estados Unidos. Ela contra-argumentou que a guerra foi iniciada pelas razões erradas, com alegações que mais tarde não se comprovariam (tal como as famigeradas armas de destruição em massa), e que tinha deixado as coisas mais instáveis do que estavam antes. Para minha ampla e absoluta surpresa o entrevistador concordou com tudo (digo surpresa porque os direitistas aqui do Brasil gostam de insistir que, na verdade, foram achadas sim armas de destruição em massa no Iraque) - e não apenas: afirmou que aí ela tinha um bom argumentou, e até tentou reformulá-lo de forma mais lógica e elegante (no que foi relativamente bem sucedido). Só adicionou: "apesar de concordar com tudo isso, não se pode compensar um erro com outro erro".
A linha de pensamento é a seguinte: sim, nós fizemos uma merda, mas agora que já estamos atolados nela fazer outra não será de grande serventia.

O interessante desse ponto de vista é que, embora cretino, ele está correto. O Estados Unidos têm muito a perder ficando no Iraque, porém têm mais ainda abandonando o lugar. Quem examinasse a questão apenas da perspectiva americana seria obrigado a concluir que o melhor mesmo é ficar lá e tentar dar um jeito na bagunça desgraçada que aprontaram.
Geralmente que se opõe à guerra não está levando em conta apenas a postura americana - de fato, considera que a perspectiva mais importante é a daqueles que sofrem diretamente com a guerra: o povo ocupado.
Mas mesmo por aí a questão não é tão simples. Acho difícil que a saída dos Estados Unidos resulte em outra coisa que uma sanguinária guerra civil fratricida. É uma pena, mas parece que o povo está mesmo habituado a responder as divergências políticas na ponta do fuzil; o que é até justo quando a "divergência política" é com o invasor, mas muito inadequado quando é com tradições diferentes da mesma religião.

De todo modo, é uma pena. Espero, sinceramente, que o povo iraquiano consiga seguir em frente com democracia, deixando para atrás tanto a ingerência americana quanto o fanatismo religioso, que são, de fato, cada um à sua maneira, os dois vilões da história.

Por último, reparei também que eles perguntaram à Jane Fonda se ela não estava cometendo o mesmo erro quando da guerra do Vietnã, quando a retirada das tropas americanas resultaram em 3 milhões de mortes.
Gostaria de esclarecer que essa pergunta está enviesada de uma forma inacreditavelmente desonesta. A cifra de 3 milhões só é alcançável se lançarmos na conta dos vietnamitas o genocídio cambojano do Khmer Rouge - o que, cá entre nós, é uma baita injustiça.
Na verdade, o Vietnã não só não pode ser culpado pelos crimes de Pol Pot como pode ser corretamente parabenizado por ter posto fim ao pesadelo. Foi o exércio vermelho vietnamita, e ninguém mais, que depôs a ditadura cambojana e barrou o terror totalitário desse regime.

Quinta-feira, Novembro 16, 2006

Não voltaremos de verdade.

Bem, era isso o que eu tinha de dizer. Vitu já falou um grande número de verdades sobre nosso afastamento, listou várias e vamos nós encaixando.

Deixar isso é mesmo triste - parece gay - mas é vero. Porque... porque...

vai, era um bom passa-tempo. Não era?

eu achava.
Sempre que uma revolução deixou de considerar como seu objetivo prioritário a tarefa de enriquecer a vida cotidiana de todos, deu armas à repressão




Apelo de um lutador da autonomia individual e coletiva


Raoul Vaneigem

Considerando que os habitantes de Oaxaca tem o direito de viver conforme desejarem, na cidade e região que são suas,

Considerando que têm sido vítimas de uma agressão brutal da polícia, dos militares e dos esquadrões da morte a soldo de um governador e de um governo corruptos, a quem não reconhecem nenhuma autoridade,

Considerando que o direito de viver dos habitantes de Oaxaca é um direito legítimo e que são as forças de ocupação e repressão que estão na ilegalidade,

Considerando que a resistência massiva e pacífica da população de Oaxaca testemunha sua firmeza em não ceder diante da ameaça, do medo, da opressão, assim como sua vontade de não responder à violência dos policiais e dos assassinos paramilitares com uma violência que justificaria a obra de sofrimento e morte realizada pelos inimigos da vida,

Considerando que a luta do povo de Oaxaca é a luta de milhões que reivindicam o direito de viver humanamente e não como animais, num mundo em que todas as formas de vida são ameaçadas pelos interesses financeiros, pela lei da ganância, pelas máfias dos negócios, pela transformação dos recursos naturais em mercadoria: a água, a terra, as espécies vegetais e animais, a mulher, a criança e o homem, escravizados todos, em seus corpos e consciências,

Considerando que a luta global empreendida em nome da vida e contra a influência totalitária da mercadoria é o que pode evitar que o povo de Oaxaca caia na desesperança que serve sempre e fielmente ao poder, paralisando o pensamento, despojando-nos da confiança em nós mesmos e ponde obstáculos à capacidade de imaginar e de criar soluções novas e assim como novas formas de luta,

Considerando que a solidariedade internacional se contenta com apelos emocionais, discursos humanitários e declarações ocas, nas quais só há a satisfação à vaidade do orador,

Desejo que um respaldo prático seja dado às assembléias populares de Oaxaca a fim de permitir que isto que não é ainda uma Comuna, possa chegar a sê-lo. O que se esboça em Oaxaca se situa em linha de continuidade com a Comuna de Paris e com as coletividades andaluzas, catalãs e aragonesas criadas durante a Revolucão espanhola de 1936-1938, onde a experiência autogestionária assentou as bases de uma nova sociedade.

Para isto, faço um chamado à criatividade de cada um, a fim de que sejam abordadas as perguntas que, sem prejulgar sua pertinência nem sua relevância, devem aparecer, com razão ou sem, na constituição de um governo do povo para o povo, ou seja, de uma democracia direta na qual as reivindicações individuais sejam consideradas, examinadas a partir do ângulo de uma eventual harmonização e dotadas de um reconhecimento coletivo que permita sua satisfação:

- Já que é tão possível e desejável que os familiares das vítimas da repressão e da ocupação policial abram um processo contra o governo e as instâncias responsáveis pelos assassinatos e pelas violências - como garantir-lhes um apoio internacional?

- Como impedir os encarceramentos, a ação dos paramilitares e que a região regresse às mãos ensangüentadas dos corruptos?

- Indo além do sobressalto de indignação suscitado pela barbárie policialesca e mafiosa; como ajudar a população de Oaxaca a ter garantias efetivas à aspiração que não deixa de expressar - “já não queremos ser presas de nenhuma violência” -?

- Como atuar de modo que nenhuma opressão seja exercida sobre o direito de viver dos indivíduos e das coletividades ligadas à defesa deste direito universal?

- Que respaldo pode propiciar a solidariedade internacional à resistência civil de Oaxaca, de modo que esta resistência civil torne-se, simplesmente, a legitimidade de um povo para governar-se a si mesmo mediante o recurso da democracia direta?

E, em uma perspectiva de médio prazo:

- Como podemos colaborar com a Comuna de Oaxaca – se assim ela o desejar – na organização da provisão de alimentos e bens de uso individual e coletivo?

- Como podemos ajudar as assembléias populares, para que elas mesmas, sem intervenção dos poderes “de cima”, realizem a gestão dos transportes, dos serviços de saúde, da provisão de água e de eletricidade, etc.?

- Que apoio internacional pode ser dado ao projeto de “educação alternativa” que, por trás da grande greve dos professores, é buscado em Oaxaca?

- Existe alguma associação científica que possa facilitar o desenvolvimento de energias naturais e não contaminantes na região de Oaxaca? O objetivo seria duplo. Por um lado, evitar que estas energias sejam implantadas autoritariamente em beneficio do Estado e das multinacionais – como vêm sucedendo na América Central. Por outro lado, recordar que, para nós, a preocupação energética e ambiental só faz sentido em sua relação com a autogestão, pois somente nesta correlação as novas fontes de energia estariam a serviço das comunidades autogestionadas. As energias naturais e não contaminantes permitem não só a independência frente às máfias petroleiras e tecnológicas, mas instaurar, pouco a pouco, a gratuidade que seu caráter renovável e fonte inesgotavel garantem, uma vez cobertos os custos de investimento. E esta idéia da gratuidade das energias, que implica, por sua vez, a gratuidade dos meios de transporte, da saúde, da educação, é, ademais, uma arma absoluta na luta contra a tirania mercantil, a melhor garantia de nossa riqueza humana.

Sempre que uma revolução deixou de considerar como seu objetivo prioritário a tarefa de enriquecer a vida cotidiana de todos, deu armas à repressão.

Segunda-feira, Novembro 13, 2006

Tomado por curiosidade a respeito da resenha que o nosso adorável gordo escrevera sobre o show do NOFX (no mais, boa - ainda que excessivamente elogiosa) retorno a essas terras abandonados por onde não imaginava voltar a andar.

Para minha surpresa, tomo conhecimento que a famigerada A.L.A.E.CNS, que em seu auge chegou a rivalizar (em caráter e potência sexual) com a não menos heróica Frente Nacional de Libertação dos Anãos de Jardim, continua atuante, viva, chutando e até comemora seu primeiro racha - estamos todos orgulhosos.

Não é segredo algum que nós herdamos o melhor de cada tradição da esquerda e do glorioso movimento operário.
De Marx, a barba e o gosto por sexo fora do casamento. De Engels, uma bela fábrica de lápis, com mais-valia objetificada de anos de trabalho proletário honesto, e um capital com formidável composição orgânica.
De Bakunin tomamos emprestado o vício por nicotina e a pederastia.
De Lênin, a careca e a sífilis.

De Stalin herdamos os expurgos, a paranóia, e, sobretudo, a coletivização forçada - de tudo o que seja.
A Trotski, o pai de todos nós, devemos a chatice, os intermináveis rachas, e aquela doce angústia de sentir traído.
De Mao, a mais brutal estupidez.
De Che, os cabelos sedosos e a mania por passarelas.
De Fidel, um misto constrangedor de longevidade e senilidade.

Agora escutem, escutem:
Sempre chega a hora em que um movimento revolucionário deve se dissolver, sob a ameaça de se tornar uma caricatura de si próprio.

Escutem, escutem:
O que querem vocês de nós, hein? Hein?
Houve uma época em que tínhamos disposição, e verve, para deliciá-los com comentários espirituosos, com aforismos geniais, com as histórias mais belas e poéticas a circular pelo mundo virtual.

Mas isso eram outras épocas, quando tínhamos juventude, tempo, imaginação e bons fígados. Agora já fomos embrutecidos demais, seja pelas drogas, pela fome, pelo trabalho, ou (especificamente no meu caso) pelos livros. Permitam-nos, pois, desfrutar de nossa velhice amarga e prematura.

Veja que a última coisa que eu escrevi aqui foi um texto sobre o Lula. Pior não tem como, mas melhor não ficará. Minha pauta de assuntos está cada vez mais desinteressante:
- o conceito de vida em Hegel
- a crítica do valor
- a revolução bolivariana
- Lula
- biologia crítica
- economia solidária e experiências de auto-gestão e desenvolvimento local nos bairros de periferia
- sandinistas, fábricas ocupadas, Evo Morales
- filosofia da ciência e Fenomenologia do Espírito
- filhadaputice da grande mídia
- Oaxaca, APPO, zapatistas

Devo, então, aborrecê-los? Vocês realmente querem que eu diga que os meios de comunicação servem ao grande capital? Que o governo Lula é de esquerda e com intuições socialistas? Que a filosofia hegeliana possui a chave para uma epistemologia social que não caia no relativismo? Que um conceito efetivo de espécie deve ser processual e dinâmico (e que a base para isso seria, portanto, o reconhecimento sexual)?

Enfim, vale a pena? Serei eu levado a sério? Há algum sentido?

Mais importante: não parece estar no espírito original e fundante desse blog, do qual me desviei há tempos. Esse espírito existiu e chamava-se Mariana - mas um certo amigo alemão o teria apelidado de "Potência negativa do absoluto".
Tudo mais é cópia e tradução. Quando muito, fumaça e espelhos. Havia, de fato, uma certa brilhante semente de angústia que nossos umbigos vomitavam, mas cairam todas em solo ruim e murcharam. Nossa estirpe não vingou.
O resto é saudade, nostalgia - do que foi ou poderia ter sido.

Não há mais espírito - ou melhor dizendo, o espírito é o osso.

Danielzinho afirma que voltaremos. Não acreditem.
É mentira.

Quinta-feira, Novembro 09, 2006



eles estão de volta.

Terça-feira, Outubro 31, 2006

.Porto Alegre, 02 de outubro de 2006.

Tenho vinte e dois anos e fui num show de hardcore. O que, mesmo que contrarie o raciocínio estático de Dona Maturidade, não constitui nenhum demérito: era um evento de gala, uma ocasião. Razões rondavam minha ida: há quem vá chorar num muro uma vez na vida e até mesmo quem degole seu prepúcio como paga por algo que se acredita, e eu acredito que uma grande parcela da formação do meu (muito bem construído, devo dizer) caráter deve-se a lições dadas em discos de punk rock. E, de 1998 a meados de 2000, os discos que mais ouvi, sem dúvida, foram do NOFX. Vê-los ao vivo nada mais era que um dever. Comprei até o ingresso antecipado, sacou? De posse, tinha certeza de que choraria no show - o que, para minha alegria, acabou não acontecendo.

Atrack, a banda de abertura, não merece duas linhas de comentários.

A primeira música do show em si, bem me recordo, foi minha segunda favorita do primeiro disco que comprei dos caras, o "So Long and Thanks for All the Shoes", de 1997. Adquirido no escuro. Tiro certeiro. Oito anos depois e ainda mandando na mosca: que maneira de se começar um show, com Murder the Government. Juro que nunca vi roda de bofete tão gigante, em quaisquer das platéias de que fiz parte até a presente data.

Dava pra notar que a banda se divertia. Digo, ao menos não lhes parecia doloroso. E creio que um grupo com mais de duas décadas de existência, que lança material novo com notável regularidade e ainda se aventura por extensas turnês na América do Sul só o faria se assim fosse. Percebe-se nas entrevistas, nos shows cada vez mais nada profissionais, nos discos oficiais, nas músicas que ficam de fora dos discos oficiais: não há outro método pra longevidade senão a diversão. Se tivessem de levar isso de forma mais séria do que como uma festa remunerada concedida à criançada por quatro quarentões, a casa cairia.

Segue o baile. The Brews. Don't Call me White. Stickin' in my Eye. I'm Tellin' Tim. Linoleum. Fat Mike é, hoje, a maior personalidade do punk rock, a única figura que realmente importa nesse meio há, no mínimo, cinco anos. Chegar a tal conclusão prova-me duas coisas: 1) trata-se de um meio falido 2) o cara é bom. A primeira é uma obviedade, e não me alongarei no assunto. Já a segunda, ouvindo as coisas mais recentes no ciclo preparatório pré-show que me impus, tornou-se evidente. Fugir das obviedades do estilo nunca lhe fora complicado e isso mantem-se firme e forte; e no punk rock já é bastante para ser tido como revolucionário. Velho e sem mais a perder (ou o que fazer, como deixa claro na letra de 60%), gasta faixas a combater a mesmice do gênero, a indústria da música, as estrelas do showbizz, a política (quer seja lideranças mundiais ou militantes bolcheviques); quando sério, consegue ser belo ou rir de sua própria condição de tiozão rockeiro. Tudo envolto em esperteza, ironia, trocadilhos e convites ao air guitar, pois se há lição que aprendi com o NOFX foi que, musicalmente, uma banda de rock se faz com homens e riffs.

She's nubs. Seeing double at the triple rock. Franco-Unamerican. Leaving Jesusland. E Soul Doubt fechando o segundo bis, última música em solo brasileiro. Nessa hora, até eu fui pra roda: que música. E se considerarmos o trocadilho com Sold Out e as cinco mil crianças que lotaram o Pepsi On Stage (uma espelunca do outro lado da cidade de uma capital com um parco sistema de transporte urbano) numa madrugada de Segunda para Terça-Feira, eis o balanço da turnê.

Terça-feira, Outubro 10, 2006

.estamos voltando, leitores de merda

aguardem com carinho.

Quarta-feira, Outubro 04, 2006

O Espírito-do-Mundo de barba

Há cerca de duas semanas a revista Veja publicou um coluna do Roberto Pompeu de Toledo que muito tem de reveladora a respeito do pensamento da elite.
Segundo o colunista, o Brasil entrou em uma enrascada, e está fudido caso o Lula seja eleito ou não. A linha principal do argumento é que Lula não é um adversário normal (o colunista sequer tentar esconder que o considera um adversário): Lula é um mito. É o mito do retirante nordestino, metalúrgico, inculto, que chegou ao poder após muita luta. Trata-se, ou assim julga a revista, de um mito danoso, uma ameaça a democracia e quem sabe à própria civilização. Tristemente, Pompeu ainda se culpa, e aos seus pares: nós criamos esse mito, ao permitir tamanha desigualdade e pobreza no Brasil. Nós a elite, claro.

Gostei da análise. É verdade, Lula é um mito - e por isso mesmo imbatível. A classe trabalhadora se identifica diretamente com o presidente, e vê nele "um de nós" - ameaçado e encurralado pela elite exatamente por isso. Não por coincidência, costumamos dizer que "Lula é muitos", que "são milhões de Lulas": homens e mulheres noite e dia a luta por um país justo e independente. Lula é o mito do presidente que é povo, e por isso mesmo o povo se sente presidente. Para além de qualquer conteúdo particular, a direita está certa quando afirma que Lula é vazio: de fato, é apenas um significado universal, independente de suas qualidades individuais, uma forma oca que a imaginação popular enche de acordo com suas próprias esperanças. É, por excelência, um símbolo. Nada mais poético que o símbolo no poder, ou melhor dizendo, a Imaginação no Poder.

É interessante, no entanto, pensar que a elite é justamente a responsável pela criação do símbolo que a atormenta. Lula é o excesso da sociedade que retorna para assombrá-la com o cair da noite. Sim, foi a elite quem criou as condições necessárias para que um Lula surgisse e se tornasse um mito: uma encarnação dos anseios por justiça social, dignidade e solidariedade - uma verdadeira explosão da autonomia operária que se nega a se submeter a um sistema alienante, irracional e corrupto. Lula é assim o síntoma de uma doença muito maior, pela qual ele não é responsável. E mais que o sintoma é também a cura.

A revolução é sempre um sintoma de uma sociedade doente, que a medida que se expressa supera a própria sociedade que o engedrou. A elite é tão culpada por seu fim quanto qualquer outro, e mais que merecedora de seus tormentos finais: por causa dela as coisas chegaram até esse ponto, e também por causa dela precisam ir além dele - implodindo o próprio ponto no processo.
Pense no caso da Venezuela, onde anos de opressão, mentira e miséria culminaram na violência transformadora encarnada em Hugo Chavez, o "espírito do mundo" vestido de vermelho - que, como Lula, é mais símbolo que homem. A sociedade os criou, e eles destruirão a sociedade - tal como a conhecemos.

Sexta-feira, Setembro 29, 2006

godot não vê futebol.


Há algo de errado com essa cidade, e bem errado. São
já sete meses por essas pastagens e tudo que ganho são
desconfianças. Apesar da vida pacífica que venho
administrando cá, não há passante que me atravesse sem
ganhar uns tostões da minha paranóia. Passo por
qualquer um, olho-o de ladinho e tomo-o logo por
artista (ator, poeta, pintor... aqui há espaço até pra
uma exposição sobre fotos de um rapaz e seu fotolog),
por homem lido ou cidadã opinada - é tudo o que há por
aqui. É desse excesso de austeridade para com a vida donde
advêm os traumas, as neuroses. Porque, sério, essa
gente tem problemas. Há peculiaridades, a existência
simlpesmente não é tocada aqui embaixo com a
gentileza com que a tratamos aí em cima. Processos
históricos para alguns, mas eu culparia o clima.

Um exemplo: semanas atrás, quando sentei e esperei.
Eram nove e meia quando a chave cantou no último dos
portões do meu prédio e alguém lá dentro de mim
disse "Não vai". Fui, contudo, e me dei mal. Pra
aprender que, por esses horários, se já não estiver
fora sair é que não se deve; se boa coisa houve foi
que tudo não me custou um centavo - por sorte.

Peguei o 343. À roleta, fiz menção de estender a carteira
e a fichinha pro cobrador que, deslocado e desprovido de
suas funções, disse-me com solene tédio "Passe
Livre". Passei. Sentei. Saltei na Redenção, berço do Amigo
Punk e central da movimentação noturna portoalegrense.
Daí dobrei à esquerda na Igreja Quadrangular e eis que
me era a Rua da República, reduto jovem em toda sua
extensa magnitude, pela primeira vez à noite.

Adiante fui. Reparei as rodinhas de violão, as
boinas nos cafés, as sopas em canecas com torradinha
de lado. Cheguei no ponto. Escolhi o local vago de maior
distância da multidão e sentei. Esperei. Chegavam. Não os
combinados, mas gestos em demasia, sobretudos,
sapatos verdes, cachecóis. Muito teatral. Era um palco
de idumentárias, e o máximo que eu conseguia fazer era
perguntar as horas porque, enfim, eu só esperaria até
as dez e o tempo é sempre sem atraso.

Nada de quem disse que viria. Vi uma colega,
acompanhada de um solene casaco aveludado: "Vai
entrar?" Não, não vou ver. "Ué, por quê? Onde tá a
fila dos sem-ingresso?" A fila tá pra lá. "E por que
tu não vai ir ver?" Não sei, vim só porque tinha dito
que vinha, como ninguém veio acho que vô voltar pra
casa e ver São Paulo e Boca. "...hãn, então tá né".
Sorriu o casaco e puxou a garota, afastando-se.
Levantei-me pensando que, se não fosse assaltado no
refazer da estrada, o passeio não me custaria nada -
Passe Livre. E de graça, na volta, pela mesma rua
até a parada de ônibus, eu via uma paisagem mais
estranha que qualquer peça de Beckett que resolvi por
não assistir: o jogo havia começado há vinte minutos
e, nos bares, nenhum televisor registrava a peleja.

Terça-feira, Setembro 12, 2006

Opa, opa.

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

Comecei a respeitar mais o Guattari apenas quando descobri (tardiamente) que ele se dizia marxista e condenava publicamente o "pensamento" pós-moderno como "o paradigma máximo de todo o tipo de submissão e compromisso com o status quo" - nada mais perto da verdade.

Agora, por essa eu não esperava. Acho que vou te dar de presente, danielzinho.

Quinta-feira, Agosto 10, 2006

ai é bom demais.

Sábado, Julho 22, 2006

. inside joke

"J" é a única letra que não aparece na tabela periódica.

Quinta-feira, Julho 20, 2006

. pedro lyra, sério?

fode-te, porque eu não posso começar uma frase com pronome oblíquo.
. desculpa, vítu, mas lula não (pra não dizer "o caralho")

Art. 224. Se a nulidade atingir a mais de metade dos votos do País nas eleições presidenciais, do Estado nas eleições federais e estaduais, ou do Município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações, e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 (vinte) a 40 (quarenta) dias.

Os votos em branco, de forma diversa, não anulam o pleito, pois não são considerados como nulos para efeito do art. 224 do Código Eleitoral (Acórdão nº 7.543, de 03/05/1983).

Valeu, brazil!

A diferença entre democracia e ditadura é que, numa, primeiro a gente vota e cumpre ordens, ao passo que na outra não é preciso perder tempo com eleições.

Terça-feira, Julho 18, 2006

. ich liebe diese ganze Nahrung, wirklich

A MELHOR gastronomia do mundo.

Sexta-feira, Julho 14, 2006

. é tipo essas idéias ai que a gente tem



vai.

Quarta-feira, Julho 12, 2006

. mexe essa bunda gorda

Aqui você encontra o google dos blogs de música.

Terça-feira, Julho 11, 2006

.the other fuck irish bit james joyce

- Sobre a vida? - respondeu ele. - Eu passaria melhor sem ela - disse ele, - pois é de pouquíssima serventia. Você não pode comê-la nem bebê-la nem fumá-la em seu cachimbo, ela não me protege da chuva e é uma triste companhia no escuro se você a despir e a levar para a cama com você após uma noite de cerveja preta quando você está tremendo de desejo. Ela é um grande engano e é algo que é melhor passar sem, como pinicos ou toicinho importado.


Flann O'Brien

Terça-feira, Julho 04, 2006

tenho tido meus dias melancólicos. de olhar pela janela, de chorar aos pouquinhos, de esvaziar inumeráveis latas de cerveja, que vão se acumulando na pia, como se fossem uma coleção, ou uma daquelas peças de arte moderna de péssima qualidade, como a gente vê nas galerias chiques.

ando de um lado para o outro. volto pra janela - sinto até vontade de fumar.
o tempo vai escorregando devagarinho, mas também sem dor. é tudo muito sublime.
estranhamente, é sempre nascer ou pôr do sol. pego duas moedas e começo a bater uma nas outras. folheio alguns livros e invariavelmente os ponho de lado pouco depois da décima linha. fui na livravaria e vi que relançaram o livro do Orwell sobre a guerra civil espanhola - Lutando na Espanha. uma beleza, recomendadíssimo, fiquei com vontade de ler de novo.
vi que saiu um novo filme do bukowski, com o matt dillon, que coisa. não é para ter muitas esperanças, mas certamente será melhor que o Pergunte ao Pó.

ainda tenho coisas para fazer, mas não consigo criar vontade. parece que o mais importante já passou.
agora é final de temporada.
agora muda tudo.

Domingo, Julho 02, 2006

. matt dillon faz henry chinasky



Estreou sexta-feira passada pelas bandas de cá, se não estou errado. Pelo o que pessoas decentes me contaram, o filme ai parece ser bom mesmo. Com certeza melhor que esse Pergunte ao Pó, que não tive, nem terei, coragem de ver.

Sem contar o Barfly. Que esse eu vi.
Ruim mesmo.

Quarta-feira, Junho 28, 2006

. noise 3D

Terça-feira, Junho 20, 2006

. eles conseguem



Rescue (2005)
Leia o FAQ antes.

Sexta-feira, Junho 16, 2006

. vinho chicleteiro



Bem aqui.

Quinta-feira, Junho 08, 2006

"É vedada a Transferência Voluntária para os dois semestres finais do curso pretendido."

filhos da puta.

Terça-feira, Junho 06, 2006

lembranças de 90 - parte 3

Outro ano de alfabetização. Raciocinei que teria que sair dali rápido e o único jeito era aprendendo a ler e escrever. E foi o que eu fiz, quando me empenhei em aprender as letrinhas e seus fonemas foi fácil percorrer o resto. O R tinha som de um rato sem orelha, pelo menos era o que estava no caderno de caligrafia. Ele sangrava no desenho, ele sua orelha cortada faziam rrrrrrrrrrrrrrr. Ao falar: rrrrrrrrrrrrrrrrrrrr. Ao rastejar: rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr. Ao cagar: rrrrrrrrrrrrrrrrrrr. Captava as coisas de forma rápida e o ano correu de forma normal na escola. Pelo menos o Careca não estava mais perto de mim.

As coisas em casam não mudaram, a não ser minha mãe, que andava menos triste que o normal. Não tinha interesse de saber o motivo. A principio minha mãe era um ser mais estranho que meu pai, pelo simples motivo de eu entendê-lo perfeitamente: ele era cruel, infiel e asqueroso. Nunca senti carinho por ele, nunca, e achava isso perfeitamente normal. Pela minha mãe eu sentia afeto, mas de vez em quando, nunca totalmente. Para mim, isso tudo, também era perfeitamente compreensível.

Ela começou a me levar a casa de um amigo seu, não era muito longe de onde morávamos. De carro era menos de cinco minutos. O sujeito morava em um prédio pelo qual ainda passo todo dia a caminho da faculdade. Íamos lá pelo menos uma vez na semana, chegando lá, sempre recebia um pacote de biscoito e chocolate, ligava a TV, e ficava esperando até que algo acontecesse. Eles sempre iam para o quarto, não sabia o que tão interessante existia na porcaria daquele quarto, mas nunca tive o interesse de saber.

Em uma dessas idas à casa do desconhecido eles me levaram à praia. Fazia um sol do caralho e eu não estava nada contente em estar naquela situação. Fomos no Fusca amarelo de minha mãe e pelo que me lembro o trajeto demorou mais do que esperado. Chegando ao lugar, que hoje sei que é a Praia do Futuro, era necessário escalar uma subida de pedras vermelhas para botar os nossos pés na areia, e hoje me pergunto que merda era essa que era necessário escalar para se chegar a um canto quente, cheio de gente fedendo a sal e sem água por perto. Aquilo tudo não fazia o menor sentido para mim. Queria ir para casa. O homem me ajudou a escalar as pedras, acabei ralando o joelho. Não liguei. Tentei me desvencilhar dele o mais rápido possível.

Chegamos finalmente na areia. Caminhamos até perto do mar e sentamos. Fiquei fazendo bobagens com a areia enquanto eles conversavam. Eu não gostava daquele cara, e estava começando a não gostar definitivamente da minha mãe. Aquilo não era certo, algo de errado estava acontecendo, só não podia provar nem tinha vontade de falar para ninguém. Do nada, ela fala comigo.

“Tome, Daniel, vá até aquela barraca e compre uma coca para você” – ela me disse, entregou o dinheiro, e imediatamente sorriu para o homem. Que merda.

Fui descalço no chão quente por não agüentar a areia entre os calçados e meus pés, aquilo me deixava aborrecido. O chão estava realmente quente, comecei a correr e pular cada vez mais rápido tentando alcançar a sombra da barraca o mais depressa possível. “Tio, uma coca, por favor”. Dei o dinheiro, ele deu a coca, trato feito. Caminhei com a cabeça baixa em direção onde eles estavam, o chão estava quente, mas não ligava mais, eu iria beber algo e isso era a melhor coisa que me havia acontecido no dia até lá.

Em um momento levantei a cabeça e vi os dois se beijando, imediatamente parei de caminhar. Aquilo tudo estava errado, de todos os lados estavam errados. Desabei no chão, consegui proteger a coca. Droga, os dois, eles. Deviam ir embora. Mas com quem eu ia ficar? Onde ia morar? O dia caminhava da pior maneira possível. O sol castigava minha cabeça, comecei a ter vontade de coçá-la. A rasguei. Não me incomodei. Fiquei parado na areia, tomando minha coca e me perguntando o que seria de mim no futuro. Todos eram doidos, e todos estavam errados: na minha casa, na minha escola. As pessoas não eram boas.

Havia algo de errado no mundo. Havia algo de errado em eu ainda estar vivo.
Tomei o resto da coca.
. lembranças de 90 - parte 2

Estava assistindo o jogo pela televisão que ficava na garagem de nossa casa enquanto meu pai não chegava com o carro da empresa em que trabalhava, aquele espaço era todo meu. E assim o fiz sozinho. Eu me preparara psicologicamente para esse jogo, sabia que o Brasil não perderia, muito menos para a Argentina, aquela primeira copa que eu estava acompanhando seria de sorte. Não me lembro de nada da Copa de 1986, ainda não tinha nem 3 anos completos. Devia estar fazendo algo muito agradável, pois não me recordo de nada deste período. Lembro de estar com os olhos grudados na televisão e estar com a camisa da seleção brasileira, nunca lavada. Penso que seria este meu primeiro contato com alguma mandinga, algo que daria qualquer tipo de sorte. Foi que Cannigia disparou do meio do campo, driblou Tafarel e já se sabe o fim disto tudo. O meu mundo desmoronou, e nem ninguém estava lá do meu lado. Olhei em volta e não escutei nenhum barulho, apenas o locutor narrando de forma melancólica o gol sofrido. O Brasil havia sido desclassificado pela Argentina nas oitavas-de-final.

Era 1991, já se passara a Copa e nada de sorte eu havia trazido. Tinha agora 8 anos de idade e passava a maior parte do tempo pensando em como fugir da escola, ou arranjar um emprego e me mandar de casa. Os meus pais pareciam ter dado um tempo nas brigas, de vez em quando eu pegava o rádio e ia para o quintal, como de costume. A escola era um grande sacrifício, e assim sempre o foi a minha vida toda. Não queria ir, muito menos aprender nada do que eles ensinavam, eu iria aprender tudo por conta própria. Só queria dormir mais um pouco pela manhã.

Lembro-me claramente do meu primeiro dia de aula e de minha mãe no banheiro de casa colocando minha cueca e amarrando meus sapatos. Amarrar os sapatos seria algo que demoraria a aprender, e nem estaria tão interessado no fim das contas. Chegando ao colégio fui apresentado à professora, não me lembro seu rosto, de forma alguma. Ela me conduziu a uma sala com cadeiras arranjadas em um círculo e me colocou em uma delas. “Sente-se, por favor.” Sentei-me. Na minha frente estava um garoto que me recordo apenas por Careca. E ele era realmente careca, não sei como, só sei que o Careca estava dormindo. Os olhos fechados e a cabeça pendendo para um lado e para o outro. “Esse cara deve ter alguma doença, eu tenho que me mandar aqui, aqui só tem doido”. Foi o que pensei. Não me deixaram sair.

Na alfabetização foi pior, eu me recusava a aprender a ler. Bati o recorde da escola como o único aluno em sua história a não acertar uma palavra sequer nos ditados recorrentes do ano. Quando me reprovaram não achei ruim, apenas peguei meu boletim que minha mãe trouxera da escola e me deitei na cama. “Você não passou, querido.” – ela disse. Meu pai foi mais enérgico e me chamou de burro, assim como a professora havia feito durante grande parte do ano.

Então... eu era burro, afinal. Tudo bem. Seria mais um ano de baboseiras.
Teria que ser menos ruim.
. lembranças de 90 - parte 1

Abri o portão. Minha mãe havia chegado em seu Fusca amarelo, ela saiu do carro chorando e soluçando, tentava falar algo. Quando conseguiu pronunciar algo inteligível me disse “vá para o seu quarto”. Sabia o que estava acontecendo, não era a primeira vez que ela chegava assim, meu pai continuava a fazer as coisas do seu jeito e sempre as coisas erradas. Não fui para meu quarto, me afastei de sua direção e ela caminhou a passos rápidos para a cozinha. Segui ela, não parecia perceber e se incomodar com este fato de modo algum. Chegando na cozinha, tirou o telefone do gancho e ligou para alguém, nunca soube quem era, tentou três vezes até conseguir, suas mãos tremiam muito.

Fiquei escondido no canto mais escuro do corredor que dava para a cozinha, ela não estava interessada em me ver, e eu muito menos que ela me visse ali. “Ele continua, sim, eu fui à casa dela, é tudo belo, ele comprou tudo para ela”. Minha mãe desmoronou em uma crise de choro, achava que não iria parar, ficou apenas com o telefone colado ou ouvido, não sei se alguém dizia algo. Permaneceu nisto por mais de meia-hora quando começou a falar de novo. Não queria mais ouvir.

Corri para o quarto do meu irmão, ele assistia televisão, e por ser mais velho, sempre achei que ele poderia ajudar quando não soubesse o que fazer. “Pai e mãe estão brigando de novo”. Ele me olhou e voltou a assistir TV, o desgraçado parecia não se importar. Eu queria estar no lugar dele. Pouco depois meu pai chegou, corri para meu quarto e liguei a televisão no volume máximo, eu sabia o que iria acontecer, mas não chorava, só sentia raiva. Pouco depois eu ouvi um grito, meu pai havia empurrado minha mãe e ela caída ao chão soluçava mais que nunca. Seus olhos pareciam mortos, negros, olhando para o vazio, apenas para a parede encardida que dava para o banheiro.

Ele passou por cima dela, quando ele ia ao seu quarto vim correndo e por trás lhe deu um empurrão. “Eu vou matar você e sua puta”. “Não diga isso, pirralho” – ele berrou. E gritei mais alto: “eu vou matar você e sua puta!”. Pegou-me pelo braço e no caminho do banheiro sacou da estante a sua palmatória que mandou confeccionar apenas para me dar uma surra quando bem entendesse, e aquele pedaço de pau doía pra valer. Arriei minhas calças e ele começou, a pia do banheiro estava mais vermelha do que nunca, os azulejos tinhas desenhos de jarro com flores e outros sem. Ele falava alguma coisa, mas nunca vou me lembrar o que era. Lascou o pedaço de pau umas 20 vezes em mim, mandou ir embora e acertou a última em meu calcanhar. Não conseguia correr, e fiquei por ali apanhando nas costas enquanto tentava sair do banheiro.

Minha mãe não estava mais no corredor, não sabia onde ela estava. Fui ao quintal e me sentei ao lado de Esquilate, meu primeiro cachorro. Deu este nome por ser o período da Copa do Mundo de 1990, minha primeira Copa do mundo. Havia um grande jogador Italiano chamado Toto Esquilate, e seria esse o nome do meu primeiro cachorro. Fiquei com ele por volta de uma hora, quando escutei os gritos e xingamentos. Voltei para dentro de casa, peguei o rádio, levei-o até o quintal e escutei música a todo volume. Ele abandava o rabo no ritmo da música, ele era uma das poucas coisas que amei quando pequeno, foi com ele que descobri pela primeira vez esse sentimento.

Ficamos acordados a madrugada toda, já era silêncio e esquilate continuava a latir com tudo. Tentava da melhor forma escoder todo o choro que vinha de dentro.

Domingo, Junho 04, 2006

Sábado, Maio 27, 2006

Facistada nas ruas

deprimente