Sempre que uma revolução deixou de considerar como seu objetivo prioritário a tarefa de enriquecer a vida cotidiana de todos, deu armas à repressão
Apelo de um lutador da autonomia individual e coletivaRaoul Vaneigem Considerando que os habitantes de Oaxaca tem o direito de viver conforme desejarem, na cidade e região que são suas,
Considerando que têm sido vítimas de uma agressão brutal da polícia, dos militares e dos esquadrões da morte a soldo de um governador e de um governo corruptos, a quem não reconhecem nenhuma autoridade,
Considerando que o direito de viver dos habitantes de Oaxaca é um direito legítimo e que são as forças de ocupação e repressão que estão na ilegalidade,
Considerando que a resistência massiva e pacífica da população de Oaxaca testemunha sua firmeza em não ceder diante da ameaça, do medo, da opressão, assim como sua vontade de não responder à violência dos policiais e dos assassinos paramilitares com uma violência que justificaria a obra de sofrimento e morte realizada pelos inimigos da vida,
Considerando que a luta do povo de Oaxaca é a luta de milhões que reivindicam o direito de viver humanamente e não como animais, num mundo em que todas as formas de vida são ameaçadas pelos interesses financeiros, pela lei da ganância, pelas máfias dos negócios, pela transformação dos recursos naturais em mercadoria: a água, a terra, as espécies vegetais e animais, a mulher, a criança e o homem, escravizados todos, em seus corpos e consciências,
Considerando que a luta global empreendida em nome da vida e contra a influência totalitária da mercadoria é o que pode evitar que o povo de Oaxaca caia na desesperança que serve sempre e fielmente ao poder, paralisando o pensamento, despojando-nos da confiança em nós mesmos e ponde obstáculos à capacidade de imaginar e de criar soluções novas e assim como novas formas de luta,
Considerando que a solidariedade internacional se contenta com apelos emocionais, discursos humanitários e declarações ocas, nas quais só há a satisfação à vaidade do orador,
Desejo que um respaldo prático seja dado às assembléias populares de Oaxaca a fim de permitir que isto que não é ainda uma Comuna, possa chegar a sê-lo. O que se esboça em Oaxaca se situa em linha de continuidade com a Comuna de Paris e com as coletividades andaluzas, catalãs e aragonesas criadas durante a Revolucão espanhola de 1936-1938, onde a experiência autogestionária assentou as bases de uma nova sociedade.
Para isto, faço um chamado à criatividade de cada um, a fim de que sejam abordadas as perguntas que, sem prejulgar sua pertinência nem sua relevância, devem aparecer, com razão ou sem, na constituição de um governo do povo para o povo, ou seja, de uma democracia direta na qual as reivindicações individuais sejam consideradas, examinadas a partir do ângulo de uma eventual harmonização e dotadas de um reconhecimento coletivo que permita sua satisfação:
- Já que é tão possível e desejável que os familiares das vítimas da repressão e da ocupação policial abram um processo contra o governo e as instâncias responsáveis pelos assassinatos e pelas violências - como garantir-lhes um apoio internacional?
- Como impedir os encarceramentos, a ação dos paramilitares e que a região regresse às mãos ensangüentadas dos corruptos?
- Indo além do sobressalto de indignação suscitado pela barbárie policialesca e mafiosa; como ajudar a população de Oaxaca a ter garantias efetivas à aspiração que não deixa de expressar - “já não queremos ser presas de nenhuma violência” -?
- Como atuar de modo que nenhuma opressão seja exercida sobre o direito de viver dos indivíduos e das coletividades ligadas à defesa deste direito universal?
- Que respaldo pode propiciar a solidariedade internacional à resistência civil de Oaxaca, de modo que esta resistência civil torne-se, simplesmente, a legitimidade de um povo para governar-se a si mesmo mediante o recurso da democracia direta?
E, em uma perspectiva de médio prazo:
- Como podemos colaborar com a Comuna de Oaxaca – se assim ela o desejar – na organização da provisão de alimentos e bens de uso individual e coletivo?
- Como podemos ajudar as assembléias populares, para que elas mesmas, sem intervenção dos poderes “de cima”, realizem a gestão dos transportes, dos serviços de saúde, da provisão de água e de eletricidade, etc.?
- Que apoio internacional pode ser dado ao projeto de “educação alternativa” que, por trás da grande greve dos professores, é buscado em Oaxaca?
- Existe alguma associação científica que possa facilitar o desenvolvimento de energias naturais e não contaminantes na região de Oaxaca? O objetivo seria duplo. Por um lado, evitar que estas energias sejam implantadas autoritariamente em beneficio do Estado e das multinacionais – como vêm sucedendo na América Central. Por outro lado, recordar que, para nós, a preocupação energética e ambiental só faz sentido em sua relação com a autogestão, pois somente nesta correlação as novas fontes de energia estariam a serviço das comunidades autogestionadas. As energias naturais e não contaminantes permitem não só a independência frente às máfias petroleiras e tecnológicas, mas instaurar, pouco a pouco, a gratuidade que seu caráter renovável e fonte inesgotavel garantem, uma vez cobertos os custos de investimento. E esta idéia da gratuidade das energias, que implica, por sua vez, a gratuidade dos meios de transporte, da saúde, da educação, é, ademais, uma arma absoluta na luta contra a tirania mercantil, a melhor garantia de nossa riqueza humana.
Sempre que uma revolução deixou de considerar como seu objetivo prioritário a tarefa de enriquecer a vida cotidiana de todos, deu armas à repressão.